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ELECTROMIOGRAFIA NAS AFECÇÕES OSTEO – DEGENERATIVAS DA COLUNA

A electromiografia é um meio complementar de diagnóstico integrado nas técnicas electroneurofisiológicas para o estudo das afecções que afectam o sistema nervoso periférico ou central.
Foi sobretudo desenvolvida e aperfeiçoada no estudo das doenças do neuróneo motor periférico juntamente com outros exames electroneurofisiológicos.

1. Electrodiagnóstico Clássico
2. Electrodiagnóstico de Detecção
3. Electrodiagnóstico de Estimulo-Detecção ( latências motoras, sensitivas, VCM, VCS )
4. Potênciais evocados e outras técnicas.

Trata-se de um exame auxiliar de diagnóstico que se baseia no comportamento quantitativo ou qualitativo da chamada “ Unidade motora de Scherrington “.
Esta é constituída, como se pode ver esquematizada na fig. 1, pela célula do corno anterior da medula, seu cilindro-eixo, todas as suas ramificações e fibras musculares por ela enervada ( “ cacho “ mio – neural de Lapic ).

 

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Fig. 1 - Clique sobre a figura para visualizar sua legenda.

 

Na figura seguinte ( fig.2 ), identificamos todas as patologias que podem lesar uma ou mais estruturas desta complexa unidade.

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Fig. 2 - Clique sobre a figura para visualizar sua legenda.

 

Nas afecções osteo – degenerativas que vamos abordar neste tema, a electromiografia colabora na detecção de alterações a nível da medula ( mielopatias compressivas ou vasculares ), dos síndromas radiculares, dos plexos e do nervo periférico.
Vamos analisar o que pode este exame ajudar nestas situações.

Antes devemos, no entanto, deixar bem claro que ele tem de assentar em premissas que passamos a expor:

1. A electromiografia é um meio auxiliar de diagnóstico que contribui para o esclarecimento das patologias, neste caso ligadas ás lesões osteo-degenerativas da coluna. É portanto errado pensar que este exame faz diagnósticos.
2. Carece de uma informação clínica para esclarecer o diagnóstico que pode confirmar ou negar.
3. Se a qualificação e experiência do especialista que o executa são fundamentais, o conhecimento do método e sua indicações, por parte do clínico que o solicita não o são menos. Evitam-se, assim, rotinas extensas e despropositadas para muitas situações clínicas.
Nem sempre é bem suportado pelo doente quer na detecção pelo pavor dos electrodos tipo agulha que alguns recusam quer pela estimulação muitas vezes mal suportada.
4. Em muitos casos não existe correlação entre a clínica, a imagem e o exame.

A clínica da patologia osteo-degenerativa da coluna, resulta do que podemos chamar elementos extrínsecos de agressão permanentes ou transitórios que passamos a citar :

Osteófitos
Barras espondilóticas
Conflitos canalares
Desvios, torsões, tracções das raízes ou dos plexos
Hipertrofia ou degenerescência das partes moles contíguas às estruturas nervosas alojadas ou raquis
Neoformações


Estas alterações podem provocar, isoladamente ou em associação, lesões que se traduzem por:
Edema
Isquémia
Fibrose
Lesão total ou parcial das estruturas nervosas


Provocando por uma ou mais destas lesões:

Dor
Alterações da sensibilidade
Déficit motor


QUADROS CLÍNICOS

De todas estas anomalias podem resultar quadros clínicos para os quais o médico solicita a nossa ajuda.
Cervicalgias puras
Cervico braquialgias
Cervicomielopatias
Radiculopatias cervicais, lombares ou lombosagradas
Lombalgias, lombosacralgias
Parésias ou paralisias de membros superiores ou inferiores.


Que ajudas pode então fornecer este exame a um doente com um destes quadros clínicos?

• Afirmar ou negar a existência de um compromisso neurogéneo e assim dar uma ideia de gravidade de deterioração das estruturas do segmento raquidiano em causa. Se um doente com uma cervicobraquialgia ou uma cervicomielopatia tem sinais electromiográficos de compromisso neurogéneo, isso pode significar que esse doente tem já uma patologia degenerativa exuberante, lesando as estruturas nervosas e poderá impor-nos medidas terapêuticas diferentes de um outro que tendo um quadro clínico idêntico, tem um E.M.G. normal.
Clinicamente, o deficit motor de um músculo só se evidência quando há uma perda de 2/3 das unidades motoras.
Quer isto dizer que em certos quadros de evolução crónica lesional de uma raiz ou nervo periférico, pode ter-se iniciado há longo tempo uma perda progressiva de unidades motoras, sem tradução clínica de perdas de forças, não só por não terem sido destruídas unidades motoras suficientes, mas também porque, por um mecanismo de compensação, algumas unidades motoras desnervadas são adaptadas por unidades sãs, as quais por um fenómeno de neoarborescência vão reinervar as fibras musculares isoladas pela desaparição dos seus axónios.
Este processo de adopção, de importância capital, pode compensar perdas axonais consideráveis e impedir o deficit motor clínico.
Mas se a destruição prossegue, o doente pode de um dia para o outro, encontrar-se numa posição de pé pendente, por exemplo por deficit motor dos dorsi-flexores.
São as chamadas ciáticas paralisantes, que de expressão clínica correspondente a uma paralisia súbita do nervo ciático popliteo externo, não são mais que a fase terminal de um longo processo de desnervação.
Assim, num indivíduo com patologia osteo-degenerativa da coluna lombar, radiculopatias intermitentes ou contínuas expressadas por dores tipo radicular pu parestesias, a confirmação de um compromisso motor, deverá orientar esse doente para um neurocirurgião, que com melhor conhecimento do terreno, da sistematização das lesões e utilizado outros meios complementares, poderá propor a intervenção.
Num indivíduo com a ciática aguda, um Electromiograma mostrando sinais de desnervação em repouso, deverá orientar o médico para aconselhar de imediato o repouso absoluto ao seu doente e sugerir-lhe a sua observação por um neurocirurgião, se o quadro clínico não regride.

• Pode ainda o Electromiograma ser importante para o diagnóstico diferencial de situações que tendo a mesma tradução clínica têm níveis lesionais muito diferentes.
Nestes casos o E.M.G. abreviará muito tempo e poderá evitar mesmo terapêuticas inoperantes ou erradas.
Temos de reconhecer que sendo a maior parte das vezes o clínico geral ou o reumatologista que observam o doente em primeiro lugar, podem nem sempre possuir a experiência ou as condições técnicas na sua actuação para permitirem o diagnóstico diferencial de certas afecções que exigem uma mais fina avaliação de elementos semiológicos, como sejam certas alterações de sensibilidade, deficits motores localizados, observação estática e dinâmica do segmento interessado, etc.
Para exemplo, uma doente com uma dor plantar e que tanto pode ter uma radiculite de S1, como uma tendinite aquiliana, um esporão do calcâneo, ou síndroma do túnel do tarso, pode ver o seu diagnóstico facilitado se um E.M.G. mostra a existência de uma compressão do nervo plantar interno a nível do túnel do tarso.
Num doente com patologia evidente de artrose lombar e uma imagem radiológica de pseudo-espondilolistesis, e E.M.G. mostrando um compromisso radicular motor, pode levar o médico assistente a considerar que o doente deva ser observado por um ortopedista e abandonar temporariamente o tratamento conservador fisioterápico que vem fazendo há meses.
Nos dismorfismos lombo-sagrada, nas colunas escolióticas com espondilo-discopatias múltiplas, também o achado de um compromisso motor, pode constituir um elemento positivo na avaliação global da incapacidade, do prognóstico e terapêutica do doente.

• Pode ainda servir de elemento positivo para um doente em que suspeitamos de hipervalorização de sintomas, para mais tranquilamente aceitarmos que a sua situação tem substracto orgânico e não é mais compatível com a sua actual profissão.
Particularmente, no campo de reumatologia cervical, pode também o E.M.G. ser de grande utilidade como componente de diagnóstico diferencial.
Sendo numerosas as situações clínicas que podem originar braquialgias (síndroma ombro-mão, síndroma do estreito superior do tórax, síndroma canaliculares do nervo mediano, do cubital, radiculites puras, nevralgia amiotrófica do ombro, osteofitose da coluna cervical, hérnia discal, mielopatia cervical, etc.) se o estudo electromiográfico mostra sinais de sofrimento do nervo mediano, sem sinais de lesão neurogénea noutros músculos estudados no mesmo membro, pode fazer-se o diagnóstico de síndroma do túnel do carpo e impedir-se que o doente seja tratado de uma radiculopatia cervical.
Um doente idoso, com patologia artrósica evidente da coluna cervical, sofreu um acidente de viação com traumatismo de hiperextensão do pescoço e contusão do ombro.
A partir daí passou a queixar-se parestesias do ombro e braço e dificuldades na abdução.
Foi feito o diagnóstico de lesão radicular por hérnia discal de origem traumática.
No entanto, um estudo electromiográfico feito mostrou sinais de desnervação total no músculo deltóide, sem sinais de compromisso noutros músculos da cintura escapular e do membro, o que levou à correcção do diagnóstico para uma lesão do nervo circunflexo.
É também o Electromiograma que permite muitas vezes fazer o diagnóstico diferencial entre deficits motores dos membros superiores incluindo mesmo atrofias, em doentes que podem ter uma mielopatia espondilótica e uma esclerose lateral amiotrófica.
A comprovação de sinais de compromisso neurogéneo em músculos dos membros superiores, como aconteceria na mielopatia, mas também nos inferiores, deverá sugerir-nos a existência de lesão degenerativa difusa do sistema nervoso.
É evidente, que todas estas perguntas e respostas exigidas à Electromiografia estão na razão directa do conhecimento que o clínico possua destas patologias.
Quer isto dizer que um pedido electromiográfico será tanto mais correcto e a resposta tanto mais precisa quanto maior for a experiência clínica de cada um como já tínhamos dito.
É frequente, por exemplo, surgir pedidos de Electromiografia nestes termos:
- Electromiografia dos membros superiores
- Síndroma do túnel do carpo ?


Este pedido é incorrecto porque se o clínico deseja apenas que se negue ou afirme, na medida do possível, este diagnóstico, não necessita tornar o exame extensivo a todos os músculos do membro superior.
Se deseja um diagnóstico diferencial com uma radiculite do membro superior, com a qual tantas vezes se confunde, o pedido correcto deveria ser:
- Estudo electromiográfico para diagnóstico diferencial entre lesão radicular e síndroma do túnel do carpo.

O Electromiograma é um exame caro e incómodo para alguns doentes.
O clínico ao pedi-lo deve fazê-lo com a consciência do proveito que dele vai tirar.
Embora de poucas respostas e não se justificando como rotina na patologia ósteo-degenerativa da coluna, é um exame com interesse podendo orientar no melhor caminho prognóstico e terapêutico do doente.


Em Conclusão

Da nossa experiência, parece-nos que o clínico pode pedir ao Electromiografista os seguintes esclarecimentos:

1- Se existe ou não compromisso motor nas estruturas nervosas ligadas à coluna.
2- Grau e topografia desse compromisso
3- Se ele é de natureza radicular, de plexo ou de nervo periférico.
4- Permite a apreciação do deficit motor fazendo o diagnóstico diferencial entre lesões orgânicas e funcionais ou de hipervalorização em doentes com sinistroses ou em fase de elaboração de processos para reforma.
5- Verificar agravamento ou melhoria de uma observação para a seguinte.


Não esqueçamos contudo que à semelhança de outros exames complementares, nenhuma das afirmações anteriores têm carácter dogmático e têm de ser correlacionadas com o estudo clínico do doente.
Se existem achados electromiográficos que podem ser um elemento importante na apreciação, a sua negatividade não permite menosprezar ou invalidar de modo seguro a conclusão do clínico.
Mas desejo também voltar a acentuar que não é a resposta decisiva nem o ponto de partida para o diagnóstico como tantas vezes acontece e transparece no modo como o clínico pede este exame.
De nenhuma maneira deve ser encarado como o exame de rotina nas afecções degenerativas da coluna.